O designer enjaulado

0 Postado por - 5 de junho de 2014 - Arquitetura de Informação

Passo cerca de 12 horas por dia interagindo com interfaces. Uma pausa para um café, outra pausa para uma reunião (e mesmo assim o celular está sempre comigo). Meus maiores hobbies estão na tela do computador, do tablet ou do Kindle. Mesmo quando estou recebendo amigos em casa, a cada par de minutos alguém troca a música do iTunes ou resolve tirar uma foto no celular e postar no Instagram. Quando estou entediado, minha mão corre pro celular. Os pequenos placebos para o tédio também são feitos de pixels.

Logo acima de mim tem uma geração de pessoas que não conhece o mundo sem smartphones, sem conexão intermitente e jogos acessíveis a um toque de distância. Que nunca viu um manual de instruções na vida. Que não sabe o significa “internauta”. Que sequer encostou em um jornal. Tem até bebê que acha estranho o fato das revistas de papel não serem interativas, está lembrado?

Tem também uma geração de designers que não sabe o que é design responsivo, porque nunca chegou a fazer design de outra forma. Que não sabe o que é “site mobile”, só sabe o que é “site”. Que não precisa fazer curso para aprender novas ferramentas, porque elas são feitas para serem aprendidas em poucos minutos. E pra eles sempre foi assim, e ainda bem.

Por isso mesmo o Design de Interação nunca esteve tão em alta. Tanto que começou a expandir para outras indústrias. Relógios, roupas, tênis, óculos, livros, fechaduras, termostatos. E se você, designer, não aprender um pouco sobre cada uma dessas coisas, você está enjaulado em um mundo de 1024 pixels de largura que está aos poucos sendo abandonado. Se você não começar a olhar em volta, você vai acabar sozinho ali dentro, dando refresh na tela pra ver se alguém aparece.

Novos modelos, novas indústrias e novas interações: o tema do Interaction South America foi por acaso. Em boa hora. Na década em que a função mutilou a forma, em que o post-it destronou o layout. Na década em que as empresas deixaram de olhar para dentro e passaram a olhar pelos olhos dos usuários. Na década em que o designer deixou de olhar para a tela e passou a olhar para o lado.

Fabrício Teixeira


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